Modéstia: o vestir-se com dignidade

Antes de tudo, precisamos compreender a modéstia como um valor que colabora para o engrandecimento e preservação pessoal ao invés de enxergá-la como uma imposição moralista ou algo irrelevante. Imensa é a carga de preconceitos que o termo carrega devido à promoção de uma pesada reengenharia social pela qual passamos.

Não dificilmente, a modéstia é tratada como sinônimo de caretice, algo ultrapassado, de um puritanismo religioso doentio. Isso, além de trazer uma conotação totalmente equivocada ao termo, tem efeitos devastadores em nossa sociedade, atingindo diretamente à dignidade humana. Longo será o nosso trabalho de desmistificação desses preconceitos e resgate desse valor que nos é tão caro, já que se trata de um campo extremamente vasto. No momento, entretanto, começaremos a tratar a modéstia dentro do campo da moda e a sua ligação (mais do que próxima) ao princípio da dignidade humana, especialmente à dignidade da mulher.

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As tendências do mundo da moda atualmente são extremamente complicadas quando vistas pelo ângulo da modéstia. É normal que queiramos participar dessa corrente, mas é necessário que prestemos atenção no sentido de agregar a ela certos valores fundamentais, como a harmonia e a elegância, procurando uma forma de realçar a dignidade da mulher em cada peça do vestuário ao invés de incitar a objetificação da mulher. A moda deve ser posta no sentido de vestir e não de despir.

Por conta da relativização de valores, talvez alguém possa se perguntar qual o problema de alguém querer se vestir sem pudor. A resposta está exatamente na preservação da dignidade humana, a medida que se guardamos aquilo que temos de mais íntimo. Antonio Orozco-Delclós, em seu livro sobre pudor, dirá que este é um ingrediente necessário na formação da intimidade pessoal, enquanto demonstra um “domínio” de si mesmo. Desse modo, o pudor levaria a uma expressão própria de liberdade ao permitir a revelação do “ser seu”, “ser você mesmo”, “dispor de si”, não em um sentido egocêntrico, e sim no sentido de manter-se na posição de si, com vista de uma entrega pela qual se transcende e se auto aperfeiçoa o sujeito (a pessoa). Para entendermos melhor o significado disso, precisamos ter em mente que o direito ao exercício da liberdade é uma exigência inseparável da dignidade da pessoa humana a medida de que esta envolve responsabilidades, assim, o exercício da liberdade não implica o direito de dizer e fazer tudo, encontrando limites no seu vínculo com a verdade e a lei natural.

Outro ponto essencial a ser levado em consideração é o significado da dignidade de pessoa humana que, muito além um princípio adotado em um estado de direito, constitui um valor fundamental inerente a todos os humanos e que deve presidir a vida social. O professor de direito Ingo Wolfgang Sarlet conceitua a dignidade da pessoa humana como qualidade intrínseca e distintiva de cada ser humano que o faz merecedor do mesmo respeito e consideração por parte do Estado e da comunidade, garantindo as condições existenciais mínimas e propiciando/promovendo sua participação ativa e co-responsável nos destinos da própria existência e da vida em comunhão com os demais seres humanos. Ressalte-se, então, que essa “qualidade intrínseca e distintiva de cada ser humano” tem tudo a ver com a vivência da modéstia enquanto garantidora da preservação da intimidade e promovedora do domínio próprio.

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A ação de cobrir certas partes do corpo que possuem valor sexuais relacionados nada mais é do que uma forma natural de auto-defesa para a pessoa. Não porque essas partes sejam más, mas porque elas podem ofuscar o bem maior da pessoa. Como dizia João Paulo, “a necessidade espontânea para ocultar valores sexuais ligados à pessoa é o caminho natural para a descoberta do valor da pessoa como tal.” Assim, no que se refere às mulheres (que são o foco desse blog, muito embora a modéstia também se aplique ao homem), a modéstia ajuda a mantê-la longe de ser tratada como um objeto de prazer sexual, fazendo-se perceber o real valor próprio trazido com ela ou, em outras palavras, realçando sua preciosidade enquanto uma mulher autêntica e de caráter.

adcf9e6d076da534319a05f2c309d47bPor Letícia Braga

4 comentários sobre “Modéstia: o vestir-se com dignidade

    • missmodestia1 disse:

      Olá Diana! Essa é uma ótima pergunta, poderia fazer um poste inteiro sobre isso! (posso ficar te devendo essa)
      Mas em termos gerais, uma roupa que iria de encontro com a preservação da mulher seria aquela que ressalta a sensualidade, ao invés da feminilidade. É possível que uma mulher se vista de forma atraente, mas sem ser sensualizada ou provocante.
      Não existe regras fechadas para determinar até que ponto uma roupa seria decente, como “dois dedos abaixo do pescoço”, “quatro acima do joelho” ou qualquer coisa do tipo. Até porque a vestimenta de fato muda de acordo com a cultura e situação em que é usada. Mas, de fato, existem limites claros e que não devem depender apenas de uma questão de cultura, como partes ligadas a procriação e suas proximidades, pois teriam um teor apelativo muito grande.
      Claro que a modéstia no sentido de valorização da mulher vai muito além da vestimenta e, dentro desse ramo do vestuário, vai além também do “ter que cobrir”, devendo a gente se atentar para o equilíbrio e bom-senso. Saia-curta e decotes muito grandes podem sim ferir um pouco da dignidade da mulher, por isso devemos estar atentas.

      Enfim, espero ter tirado sua dúvida. Qualquer coisa pode perguntar que estamos a disposição! Como o blog ainda é novo, as postagens que ainda virão poderão ajudar baste a esclarecer suas dúvidas também!

      Atenciosamente,
      Letícia Braga

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  1. Fernanda disse:

    A mulher pode mostrar que tem valor mais com suas atitudes do que com vestimentas, não?
    Conheço várias mulheres que se vestem “decentemente” e que na verdade não se dão ao mínimo valor. E também, conheço muitas mulheres que ousam nas suas roupas (que, particularmente considero normal se vestir com decote e saia curta -não aquelas que mostram a bunda também, por favor) e que são super respeitadas devido às suas atitudes.
    Desde já obrigada.

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    • missmodestia1 disse:

      Fernanda, entendo perfeitamente sua colocação. Quando falamos de modéstia (que seria no sentido de preservar o valor, tanto da mulher como o do homem também), inclusive, falamos sempre sobre modéstia interna e modéstia externa. A primeira tem relação com nossos pensamentos e sentimentos. enquanto a segunda estaria ligada às nossas ações, comportamentos e outros modos de se apresentar perante o próximo, o que incluiria o vestuário.
      Podemos dizer, ainda, que a modéstia externa é um sinal reflexo da modéstia interna. Logo, os sinais externos estão de certo modo depreciando o valor ou a dignidade de uma pessoa, é por conta de algo mal resolvido dentro do seu próprio interior.
      Pode parecer uma questão complexa, mas a construção de um valor verdadeiro e da autenticidade estaria na união de tudo isso. Realmente, não adianta muita coisa nos vestirmos como puritanas e não termos cuidado com nossas atitudes. Do mesmo modo, ter boas atitudes não impedem que se tenha um cuidado maior com sua imagem. Até porque, a essência de se vestir com pudor deve ser sim um reflexo de algo interior.
      Outra coisa que a gente pode falar também é que usar roupas muito curtas ou decotadas pode ser algo comum hoje, mas não normal quando a gente vai estudar a história da moda e percebe como isso foi aos poucos sendo imposto com até certos cunhos ideológicos, que nada queriam ressaltar o valor e a beleza feminina. Hoje, infelizmente, a noção de pudor é quebrada desde que somos crianças.
      Agora, como forma de desabafo, eu posso dizer que também já pensei do mesmo modo que você e foi muito difícil que eu aceitasse mudar mesmo depois de ler vários materiais sobre o assunto. Ainda estou mudando aos poucos em todas a searas da minha vida, mas acredito muito que aos poucos podemos mudar de maneira positiva. 🙂 No meu caso, por exemplo, eu percebi que me impelia a usar roupas mais curtas e decotes era por pura vaidade, porque aquilo de certo modo chamava atenção para mim e aumentava meu ego. Depois percebi que, além da vaidade nesse sentido não ser algo bom, eu estava querendo chamar atenção de forma errada… que deveria querer ressaltar mais minhas virtudes.

      Espero, de certa forma, ter ajudado. Essas são questões que tem uma abordagem muito extensa e, por isso, pretendo escrever vários outros postes explicando! Acompanha a gente!!! Qualquer coisa, estaremos sempre a disposição. ^^

      Atenciosamente,
      Letícia Braga

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