Uma pequena análise do que mais importa.

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                   Acredito que essa foto circulou no Facebook de muitas pessoas. Se trata de uma blogueira que, não aguentando mais a vida dúbia que levava, decidiu revelar o que se passava por trás das câmeras. O depoimento comovente da jovem me inspirou para escrever o texto a seguir.

                Hoje em dia é uma questão quase cultural esse desejo de ser bem visto a todo o custo para sentir-se bem. Alguns expõem essa realidade como uma triste consequência de todo o processo de descobrimento e colonização brasileira e seus entornos culturais. De fato, consigo enxergar total relevância nessa explicação, mas é difícil assumir a realidade que nos circula em esfera mundial e parece nos incitar para uma vivência totalmente centralizada nos próprios propósitos, na própria aparência (transcenda o significado de aparência aqui, não se trata apenas de estética) e no bem estar pessoal.

                É uma tremenda ingenuidade estar dentro da realidade que nos circunda e nos fazermos reféns dela sem ao menos compreendê-la. Quero lançar um questionamento breve que às vezes não nos passa pela cabeça: por que cada dia mais encontraram aplicativos de celular para expor nossa vida ao mundo? Por que esses sites querem que nós coloquemos nosso estado social, nossa religião, onde estamos, o que estamos fazendo, com quem nós estamos?

                Cada dia que passa essa realidade parece mais preocupante e cheguei ao ponto de perceber que nossa sociedade está completamente escravizada por esse desejo de aparecer. Sentamos em mesas e todos estão com o celular do lado do prato, é muito importante tirarmos fotos não para guardarmos como recordação, mas para postarmos no mesmo instante na rede social, marcando a ilustre presença de quem nossa pessoa está disfrutando, o local magnifico que nos encontramos e a alegria sem fim que temos de estar lá.

                Quem nós estamos enganando? A triste resposta é: a todos. Até a nós mesmos. Entramos em um mundo de máscaras e ilusões que saíram das páginas das redes sociais e chegaram às portas de nossas casas. Pessoas rasas, pessoas que se preocupam mais com o parecer do que com o ser. Um mundo de narcisistas, hedonistas, egoístas.

                Para mim é tamanha a tristeza que sinto quando percebo que até eu mesma, depois de muito relutar, fui cedendo a essa realidade. As consequências foram claras, chegando ao estopim de um momento que me marcou de tal forma que tive de parar e refletir francamente minhas ações e intenções.

                Para não expor tanto a situação, vou trocar o nome dos locais: estava eu a pensar em um querido conhecido que estava a ponto de se formar. O moço é amigo de vários amigos meus de um bom grupo de amizade. No mesmo ano fui convidada para algumas formaturas e os momentos foram especiais. Confesso que não tenho tamanha intimidade com o senhor o qual me refiro, mas tenho boas conversas com ele e boas impressões. Fiquei desejando fortemente que ele me convidasse para sua formatura, comentei isso com vários amigos e ansiei por esse momento. Chegou ao ponto que disse que ficaria com raiva caso ele não me convidasse, por que não seria possível ele convidar o grupo todo e não convidar minha “incrível” pessoa. Até que um dia parei, estava na missa dominical, e pensei comigo mesma: por que quero tanto ir a essa formatura? Na hora, como um flash, me veio a resposta tão clara que perfurou meu orgulho: não é por que gosto dele, nem por que desejo o melhor para ele (ambas as assertivas são verdadeiras), mas por que quero mostrar para os outros que estive lá. Foi de tal forma intenso isso que senti vergonha de mim mesma. Que tamanha infantilidade, carência, superficialidade, pensei comigo. O quanto perco com um pensamento tão raso como esse?

                Talvez, se eu não me importasse tanto com a aparência que queria passar estando na presença desse senhor, já seria uma boa amiga dele, só por disfrutar sua presença como ser, não de seu status.

                Existem pessoas que, infelizmente, vivem um circuito narcisista quase como estilo de vida. Parece que vivem constantemente querendo se auto afirmar no que são e não reconhecem erros pessoais. Do contrário, como é belo encontrar pessoas simples, pessoas acessíveis, pessoas caridosas e doadas para os outros, pessoas que são inteiras no momento o qual se encontram, que reconhecem sua realidade e assim a vivem. Não é maravilhoso quanto estamos com alguém que quando está conosco se volta totalmente a nós e vice-versa? Gosto de quem olha nos olhos e ama.

                Quantas vezes não conhecemos alguém o qual já temos uma impressão pré-formada pelo grupo de amigos que ela tem na rede social, as fotos que ela coloca, etc.? Quantas vezes não nos surpreendemos descobrindo alguém completamente diferente? Não consigo enxergar isso sem pensar que as horas que dedicamos às redes sociais, para passarmos a imagem que queremos são horas perdidas de nos transformarmos naqueles que desejamos ser, na busca por alcançar os objetivos almejados.

                Mas não vou colocar a culpa só nas redes sociais. Entendam que o problema não está em você se preocupar com sua autoimagem, todos nós temos, mais ou menos, uma imagem a zelar. O problema está no momento que colocamos isso de tal forma na frente das outras coisas que não conseguimos distinguir quem somos de quem estamos apresentando (só o fato de serem duas coisas diferentes já é um tanto preocupante). Quando fazemos isso, acabamos criando uma grande mentira em nossa vida, o que pode levar a consequências seríssimas!

Eu vejo pessoas que gostam de manter a postura, nariz empinado, roupa engomada, vida organizada, mas aprendi uma coisa: as coisas podem estar organizadas, os horários, a casa, mas a vida não necessariamente está.  Justamente por que a pessoa não está colocando as prioridades certas.

Quantas mães e pais que se preocupam demais com sua casa e esquecem das pessoas que estão dentro. Que acham que amar é só colocar a comida na mesa e esquecem que antes disso têm um compromisso presencial com seus respectivos esposos e filhos. Quantos jovens que vendem o prazer de conhecer o coração de alguém para viverem na superfície de manter o status.

Essa realidade do lar é de tal forma recorrente que acaba se tornando uma bola de neve que gera consequências. Os pais que se preocupam demais com a aparência da família, que acham que se tudo está organizado as coisas estão bem e, quando seus filhos estão depressivos e cansados, dizem não saber onde erraram. É obvio onde erraram: não amaram, não dedicaram tempo, não escutaram, não mostraram a importância que aquela pessoa tinha para eles. Quantas pessoas carentes nesse mundo, quantas pessoas sofridas que precisam de presença. Simplesmente presença. Que não tiveram isso em casa e levam para as relações humanas, para o trabalho, redes sociais, etc.

Se você está na dúvida entre conseguir deixar o guarda roupa totalmente engomado, a casa totalmente perfeita e ser o mais inteiro o possível na presença das pessoas (as vezes não conseguimos os dois, as vezes até faltamos com caridade com os outros pelas manias de perfeição), escolha antes estar com os outros do que aparentar com os outros. Escolha antes não estar com a aparência impecável a todo instante e antes desfrutar da presença de quem precisa de você. Odeio pessoas que vivem como se não tivessem fraquezas. Tentam mostrar de todas as formas que são melhores e superiores, enganam a si mesmas e aos outros, passam uma imagem intocável, uma grande estupidez. Cristo se fez o ser mais manuseável de todos, um simples pedacinho de pão que se entrega a todo aquele que quiser, seja digno ou não. Por que não nós? Por que não SIMPLESMENTE amar?

Vale constar aqui, você ser excelente naquilo que faz não é falta de amor. É maravilhoso, a partir do momento que é direcionado da forma certa. Certa vez, no curso da Camila Abadie que estou fazendo (“De volta ao lar” o nome, recomendo), foi falado algo muito correto: Precisamos estabelecer prioridades e, antes de tudo, as pessoas precisam ser a principal prioridade. Primeiro Deus, Cristo, que é uma pessoa. Depois as outras pessoas, seu marido, seus filhos, familiares, colegas de trabalho, enfim. Então as coisas. E tratar das pessoas não é simplesmente morrer de trabalhar, ou deixar uma casa perfeita (por mais que seja para os outros). É estar na presença delas, é escuta-las, é dedicar-lhes tempo (algo que nos é muito difícil hoje).

                Um bom começo (ou talvez recomeço), é sentar e fazer um exame de consciência: estou sendo soberbo? Estou criando uma imagem de superioridade? O que está por trás de minhas ações? Por que me dedico tanto a minha aparência nos locais, ao meu modo de falar, por que analiso tanto meu modo de agir?

                Quantas pessoas eu conheço que são mecânicas. Esforçam-se tanto para passar a imagem mais perfeita que perdem completamente a espontaneidade da vida. Que tristeza, elas não percebem que a vida sempre terá surpresas. No fundo, foi um desfalque de criação, falta de amor, pessoas que foram apreciadas na vida pelo que fazem, não pelo que são.

                Antes de tudo, precisamos reconhecer quem nós somos: filhos e filhas de Deus. Temos uma dignidade imensa, incalculável. E longe de isso nos ensoberbecer, deve nos dar um coração grato, que toma posse disso e que transmite essa verdade aos outros.

                O mundo precisa de pessoas que tenham coragem de tirar essas máscaras, por mais que possam doer, precisa de pessoas que tenham coragem de serem autenticas sem ter medo de mostrarem-se. E quando digo isso, também me refiro aos defeitos. Somos todos humanos, temos erros, somos frágeis, precisamos do auxílio divino. Então pra que tamanha soberba? Não é a imagem que passamos nas redes sociais ou número de likes que deve nos dar segurança em nossas palavras, mas a certeza que estamos na busca pela verdade, que é o próprio Deus Nosso Senhor.

                Não guardarei palavras ou hesitarei em mencionar Deus nessa publicação, porque sem Ele não há uma resposta certa para todo esse desencadear de carências e vaidades. Vivemos em uma sociedade que no fundo foi pouco amada e muito ferida. Nós mesmos o fomos. Eu mesma o fui. Mas devemos ter a certeza que existe uma cura e essa cura está no nosso íntimo, não na superfície de nossa imagem. Saiamos, então, dos likes. Fechemos nossos notebooks um pouco. Apreciemos a companhia de quem precisa de nós. Reconheçamos que precisamos ser amados.

                Quando penso nisso, às vezes me vem na cabeça algumas pessoas que desejam aparentarem-se tão autossuficientes, mas que em todas as ações parecem gritar desesperadamente: olhem para mim! Gostem de mim! Reconheçam-me!

                Penso comigo: as pessoas são um mundo, uma infinidade de ações e reações, uma complexidade tamanha que não pode ser desvendada por postagens no Facebook ou fotos no Instagram. É tamanha a complexidade que Deus instituiu um sacramento como o do matrimônio, o qual você passa o resto da vida desvendando um único ser. Precisamos urgentemente sair das camadas externas e amar.

                Amar. Essa é a solução. Concluo o texto (que é apenas uma pincelada em um assunto tão vasto) com essa palavra: amar. Essa é nossa missão, a de cada um de nós. Amar até doer.

6969583499_ff6398cf67            Por Mirella Matos.

4 comentários sobre “Uma pequena análise do que mais importa.

  1. Renata disse:

    Esse foi um dos motivos pelos quais eu sai do facebook. As pessoas não são mais sinceras com elas nem com o mundo ao seu redor. Se autoenganam constantemente. E querendo ou não, quando você está inserida no meio acaba se enganando também. Hoje ainda tenho instagram, mas sempre estou me policiando. Quando posto alguma coisa me pergunto qual a intenção daquela postagem. Parabéns pelo texto.

    Curtido por 1 pessoa

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